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O voo solo e as raízes de Marcelo Falcão: “Nunca ganhei a chancela do Leblon”

Prestes a estrear a turnê 'O Legado', o ex-vocalista d'O Rappa fala sobre o subúrbio carioca, seus discos favoritos e planos para o futuro

Por Tomas Novaes 30 jul 2026, 19h44 | Atualizado em 3 ago 2026, 10h48
Homem negro com dreadlocks e barba, usando óculos escuros, camisa preta e lenço no pescoço, estende as mãos para frente em um fundo escuro
Marcelo Falcão, em voo solo: voz d'O Rappa, cantor e compositor lançou seu segundo disco próprio, 'O Legado'  (30e/divulgação)
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O voo solo e as raízes de Marcelo Falcão: “Nunca ganhei a chancela do Leblon” Priorizar nos meus resultados Google

Marcelo Falcão, 53, sabe bem de onde veio. Mas confessa que não sabe para onde vai. Resta uma certeza: “quero dar continuidade”. Em voo solo (desde 2018) ou com O Rappa, o cantor e compositor carioca sempre atendeu ao chamado da música, sem perder as raízes nem o clássico timbre grave da voz.

A ponte entre passado e futuro sustenta o disco Legado (2025), o segundo do artista após a pausa da ex-banda. O projeto ganha os palcos a partir de agosto, com grande turnê que estreia no Rio de Janeiro, dia 8.

Cartaz de show com Marcelo Falcão, dreadlocks, barba, óculos escuros e moletom cinza, olhando para frente. O título Marcelo Falcão em dourado texturizado está acima. Abaixo, Turnê O Legado e uma lista de datas, cidades e locais de shows em agosto e setembro, como Rio de Janeiro, Fortaleza, Porto Alegre e São Paulo. No rodapé, Mais datas em breve e o logo 30 anos
As datas da turnê ‘O Legado’: produção da empresa 30e ()
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O título do trabalho traduz bem o momento de Falcão. O “legado” está nas letras densas sobre problemas sociais e pessoais, que soam como mensagens para quem escuta. E na tarefa de levar adiante a sua história de mais de trinta anos na música. “Sigo fazendo o que me emociona. Que o mundo e o amor me deem motivos para continuar canetando sobre eles. E que a gente nunca se esqueça de onde veio”, declara.

O reggae, o rock e o pop seguem como pilares do som do cantor. Seu primeiro disco solo foi Viver (mais leve que o ar) (2019), e nessa caminhada a sós vieram hits com participações em projetos alheios, como a faixa Pesadão, dueto de 2017 com Iza, e Não Desista Agora, lançada em 2021 com Filipe Ret.

“Eu não vim de uma época de like, e sim de um tempo em que as pessoas faziam músicas que ficavam para sempre. Então, toda vez que olho para a minha história, tenho orgulho de tocar cada canção“, diz.

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Nesse recomeço da carreira, a vontade é criar e construir novas pontes. “Estou no trilho do sonho do músico. De novas parcerias, novos produtores”, diz Falcão, que hoje vê os pais levando os filhos nos seus shows. E a nova geração se aproximando do seu som, após colaborações de rappers como L7NNON, Orochi e Major RD no disco Legado. “Lá atrás o Rappa não foi abraçado. Então eu quero ser esse cara que incentiva a minha geração a ouvir coisas novas”.

Homem de dreadlocks e óculos escuros, vestindo jaqueta escura e camisa clara, sentado em uma cadeira coberta por tecido cinza, com as mãos cruzadas e anéis nos dedos, contra um fundo azul escuro texturizado
Marcelo Falcão, 53: novo disco e turnê solo, ‘O Legado’ ()
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Caneta na mão

Todas as faixas de  O Legado trazem a assinatura de Falcão na composição. “Hoje eu caneto e já quero ir logo para o estúdio. Quando faço uma melodia, eu ‘grunho’ ela. Por isso nunca tiro os jargões”, detalha. Entre os parceiros do novo trabalho estão Lula Queiroga e Ademir Custódio, seu pai. “Todo domingo a gente senta para almoçar, quando volto de viagem. Ele é o meu herói, ele me ensinou tudo”, conta.

A inspiração tem propósito. “Estou sempre vivendo na esperança de que, cantando algo do meu coração, possa mudar a minha vida e a de outras pessoas. Sabemos que o mundo não é totalmente positivo, é pesado para todos nós, poderia ser mais leve. Então canto para que, naquelas duas horas de show, a vida das pessoas seja transformada”.

A música Crença e Fé, de Legado, é um exemplo, com os versos: Faz diferença a minha fé num mundo desigual/Superficial/Ser capaz de vencer sem se envolver com o mal. A trilha de Falcão é a organicidade, tanto nas palavras quanto no som. “Mensagens como essa fazem diferença. As pessoas ganham o direito de cantar e cantam com playback, ou ficam com medo de errar e colocam um VS (sons pré-gravados). Respeito muito, mas venho de uma escola em que quero ouvir o barulho, o grave, a porrada”, defende.

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Origem e cura

A desigualdade e os problemas sociais brasileiros são temas recorrentes nas letras da carreira solo de Falcão e dos discos d’O Rappa. “Entre tantos remédios e injeções para a cura, existe a música. As pessoas estão precisando disso. É a mesma necessidade que tenho de cantar. Venho do subúrbio, minha família ainda mora lá. E hoje está pior do que quando saí. Quando vou visitá-los, volto canetando, desabafando. É tudo muito verdadeiro”.

Falcão nasceu e cresceu no Engenho Novo, na Zona Norte carioca. “Não é falar da favela por falar da favela. É se emocionar com as coisas, e as pessoas sentem isso. A minha voz é um instrumento para levar esperança. Não é flores. É guerra. São vários nãos, a minha vida foi sempre assim. Nunca ganhei a chancela do Leblon, foi sempre uma briga solitária”, diz.

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Essa luta solitária teve desde o começo um escudeiro fiel: o violão, seu melhor amigo. “Comecei a aprender com revistinhas, e gostava de incorporar os cantores, tentava imitar Renato Russo, Djavan, Titãs, João Gilberto...”, relembra.

O cantor chegou a estudar violão flamenco, inspirado pelo ídolo Paco de Lucía (1947-2014). “Sempre tive o violão como amigo. Morava em um conjunto habitacional, no 4o andar. E a acústica era muito maneira, o som se espalhava pelos corredores. Eu tocava e via as pessoas abrindo as portas pelos andares para me ouvirem cantar, até lá embaixo. O violão sempre me deu acolhimento”, conta.

Logo depois, no início dos anos 90, começou a história d’O Rappa, com Falcão acompanhado de Marcelo Yuka (1965-2019), Xandão, Marcelo Lobato e Nelson Meireles, que saiu em 1994 para a entrada de Lauro Farias. E vieram sucessos como Anjos (Pra quem tem fé), Minha alma (A paz que eu não quero), Pescador de ilusões, Auto-reverse…

Homem negro de dreads e barba, vestindo regata branca e calça preta, segurando um espelho que reflete sua imagem, em preto e branco. Ele olha para cima, com tatuagens nos braços, em um ambiente externo com parede de pedra e plantas.
Música e mensagem: “Minha voz é um instrumento de levar esperança” ()

O Rappa vai voltar?

O grupo anunciou uma “pausa sem previsão de volta” em 2018. Sobre o futuro, Falcão deixa claro que o momento do retorno não é este. Mas virá. “Estamos felizes com o que a gente se propôs. Tenho compromissos, todo um planejamento. O Rappa será sempre o amor da minha vida, mas nesse momento tenho mais um disco para entregar”, adianta.

Em 2027 virá o terceiro disco solo do artista com a Virgin Music Group. O álbum terá participação de Alcione. “Depois de entregar esse disco, penso em ficar um tempo na Austrália, minha mulher tem cidadania e inglês fluente, quero que meu filho tenha também”, anuncia.

Mas a ideia do futuro retorno está clara. “É um clima meio Oasis, depois que o cantor entregou três discos, se sentiu confortável para voltar com a banda. Então, levemente falando, eu me vejo assim. Talvez leve menos tempo do que o Titãs (risos)”, brinca. Por enquanto, Falcão segue cuidando bem do seu próprio legado.

Marcelo Falcão em 5 discos e artistas

  • Samba Esquema Novo (1963), de Jorge Ben Jor.
Jorge Ben, jovem negro de camisa polo vermelha e calça azul, toca violão com a perna direita levantada. O título JORGE BEN SAMBA ESQUEMA NOVO aparece à direita
A capa de ‘Samba Esquema Novo’ (1963): disco de estreia de Jorge Ben Jor ()
  • Led Zeppelin IV (1971), de Led Zeppelin.
Quadro antigo com moldura preta ornamentada pendurado em parede com papel de parede descascado. A imagem dentro do quadro mostra um homem idoso, curvado, com barba, chapéu e roupas marrons, carregando um feixe de galhos secos nas costas, apoiado em um cajado, em um campo verde com árvores ao fundo
‘Led Zeppelin IV’ (1971), de Led Zeppelin. ()
  • “Sou apaixonado no Jack White, me amarro muito.”
Jack White, músico de cabelos escuros e camisa jeans, olha sério para frente, com a mão direita na cabeça. Um microfone vintage e um violão aparecem em primeiro plano, com um selo azul no canto superior direito com os dizeres Jack White Acoustic Recordings 1998-2016
O guitarrista, cantor e compositor americano Jack White: carreira solo e à frente da banda The White Stripes ()
  • “Sobre discos, se eu não tenho todos, tenho quase todos do Fela Kuti (1938-1997).”
Fela Kuti, sem camisa, com um colar de corrente grossa, ergue os dois punhos cerrados acima da cabeça, olhando fixamente para frente
Fela Kuti em 1986: artista nigeriano pioneiro do afrobeat ()
  • “Sade também. Ela pode estar no tom mais alto, mas com delicadeza, aquela suavidade.”
Sade Adu cantando com os olhos fechados, usando brincos de argola grandes e gola alta, segurando um microfone com a mão direita, em preto e branco
A cantora britânica-nigeriana Sade: grande nome do soul, pop e R&B ()

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