Agnes Nunes: “Nós, mulheres negras, merecemos ser amadas em voz alta”
O olhar da jovem cantora em ascensão na música brasileira, sobre sua relação com o amor, com o Nordeste, o peso do racismo e o seu lado atriz
“Estou no meu momento. Vivendo ele, abraçando com muito carinho e cuidando com muito amor.” É assim que a cantora Agnes Nunes, de 24 anos, nascida na Bahia e criada na Paraíba, define sua fase atual.
A artista de voz doce marcante, que chamou a atenção de um olheiro aos 14 anos e explodiu para o Brasil aos 17, se prepara para uma turnê na Europa, entre setembro e outubro, com direito a abrir uma apresentação de Djavan, em Paris.
Além disso, ela trabalha em seu terceiro álbum de estúdio, previsto para sair ainda neste ano, e prepara a sua segunda incursão no audiovisual: como atriz no filme A Cabeça do Santo, de Joana Mariani, baseado no romance de Socorro Acioli.
O novo disco é o primeiro após a mudança de escritório responsável pela gestão da carreira da cantora e compositora, há pouco mais de um ano. O projeto vem com mais liberdade criativa e maturidade, graças não só à passagem do tempo, mas também à experiência adquirida no contato com o público (crescente) e em colaborações com grandes nomes, como Elza Soares, Seu Jorge e Chico César.
Com duas obras anteriores — Menina Mulher (2022) e O Amor e Suas Variáveis (2024) —, Agnes tem aprendido a lidar com as expectativas em torno da sua música. “Quando faço um álbum, penso com carinho no que meu público gostaria de escutar, no que talvez agrade à indústria, mas acho que precisa ter um equilíbrio”, afirma ela, sincera. “Essa pressão do lado de fora não pode ser maior do que o propósito de estar aqui e fazer o que eu me propus a fazer, que é a arte.”
Uma das certezas do álbum é a participação de Chico César, um dos padrinhos musicais da artista. Ele a descobriu pelos vídeos que a jovem publicava no Instagram, tocando piano e cantando, e ficou fascinado. “Era comovente”, diz Chico, que logo a convidou para um dueto: De Peito Aberto integra O Amor É um Ato Revolucionário, disco lançado pelo cantor paraibano em 2019.
As gravações aconteceram no Rio de Janeiro e contaram com a visita do rapper Xamã, amigo de Agnes. “A partir daí, nos tornamos amigos para toda a vida. É como se ela fosse uma mulher mais jovem da minha família, eu a vejo dessa forma”, define o cant
or e compositor, aos 62 anos. “E sou muito fã, admiro muito o trabalho dela. Espero que a essência do trabalho da Agnes nunca se dilua — e nunca vai se diluir, porque é algo indestrutível, é a própria alma dela.”
Xamã e a cantora, por sinal, já gravaram diversas músicas juntos. Eles lançaram o EP conjunto Elas por Elas (2019), e ela participou de três dos quatro álbuns do artista: O Iluminado (2019), Zodíaco (2020) e Fragmentado (2025). Ele é outro que se derrete pelo talento da artista. “A Agnes tem uma voz que abraça e uma sensibilidade sem igual. Ela respira música 24 horas por dia”, diz o rapper carioca de 36 anos. “Tenho uma admiração pela forma como ela transforma caos em melodia e, principalmente, pela pessoa que ela é”, filosofa.
Agnes também já mostrou uma outra faceta: a de atriz. Ela participou da série Só Se For por Amor (2022), da Netflix, e está empolgada por integrar o elenco da adaptação para o cinema de A Cabeça de Santo. “Eu amei a experiência, e me ajudou também no trabalho na música, a me expressar melhor. Acho que atuar e cantar são duas coisas que vão andar de mãos dadas na minha carreira”, entrega.
O convite partiu de Joana Mariani, que também foi uma das diretoras da série. “Quando li, me apaixonei. Vou ser a Rosário, uma personagem que no livro não se desenvolve tanto, mas no roteiro tem um espaço maior. Estou bem animada”, empolga-se ela.
Atualmente vivendo em São Paulo, Agnes se define como “bichinho do mundo”. “Eu faço qualquer lugar virar a minha casa”, garante. Por causa do trabalho da mãe, Cida, professora de serviço social, a cantora morou em diversos lugares. Nasceu em Feira de Santana (BA), mas aos 9 meses foi para Jericó, no sertão da Paraíba. Também viveu em Sousa e Campina Grande, no mesmo estado.
Aos 17 anos, em 2019, se mudou para o Rio de Janeiro. Em 2022, foi a vez de ir para São Paulo. “Todos os lugares por onde passei me fizeram, de certa forma, mais forte”, analisa. Em Sousa, no início da adolescência, ela sentiu com força o peso do racismo, sobretudo quando adotou o cabelo black power, hoje uma de suas marcas registradas.
Foi nessa época também que começou a tocar teclado e a frequentar um centro cultural local, onde se sentia em casa, com muitas pessoas da comunidade LGBTQIA+ e artistas em geral. “Era um lugar onde eu gostava de estar. Eles diziam: ‘Seu cabelo é muito lindo, você parece Diana Ross, parece não sei quem. Aí me mostravam fotos. Passei a ter outras referências. Fiquei famosa lá”, diverte-se.
Em Campina Grande, iniciou a publicação dos vídeos em que aparece cantando, que a revelaram para o Brasil. O Sudeste foi onde sua carreira se profissionalizou, mas também onde ela entrou em contato com outro tipo de discriminação, além do racismo: a xenofobia.
Ter muitos amigos nordestinos em São Paulo a ajuda a lidar com essa violência. “A gente se pega um no outro para não esquecer o que é que nos sustenta, onde é a nossa casa”, explica. Já o combate ao racismo ganhou novos contornos para ela quando Agnes — criada no catolicismo, religião de sua avó materna, Terezinha — abraçou o candomblé, há dois anos.
Tendo vivido em um ambiente majoritariamente branco desde o início da trajetória artística, ela foi em busca de suas raízes e de letramento racial. “Uma vez que você começa a jornada do autoconhecimento, não tem volta. Que nem dizia Caio Fernando Abreu: ‘Ver é irreversível'”, descreve.
Esse processo também fez com que ela tivesse a dimensão de seu papel enquanto referência de mulher negra no Brasil. “É muito louco quando você entra nessa jornada de se conhecer, de gritar quem você é e de gritar as mulheres que vieram antes, uma história que por muito tempo foi e ainda é silenciada”, pondera Agnes. “Eu estava conversando com a (rapper) Ebony, minha amiga, e falamos: nós sempre estivemos aqui, só que agora não está dando mais para ninguém esconder. O nosso barulho está tão grande que não tem como não falar sobre isso, não tem mais como não espalhar por aí o orgulho que a gente sente de ser negra, da nossa luta estar sendo reconhecida, de saber que inspiramos milhares de pretinhas”, emociona-se.
Também foi em São Paulo que ela encontrou mais impulso para falar sobre um tema recorrente em sua obra: o amor. Desde 2024, ela namora o cantor e compositor Tom Ribeira, de 24 anos. A parceria se estendeu para a vida profissional, e no último Dia dos Namorados eles lançaram um feat, Vc Assim, com direito a um fofíssimo clipe estrelado pelo casal.
Agnes abre um sorriso sincero para falar do assunto. “O amor é o que me sustenta. Fui criada por mulheres fortíssimas que tiraram amor não sei de onde para me criar e me deram muito amor”, analisa ela. “É um privilégio compartilhar dessa relação com ele, que é um homem muito sensível. Nós, mulheres negras, merecemos ser amadas em voz alta.” ■
Publicado em BRAVO! de agosto de 2026, edição nº 193





