Manifesto visual e sonoro. Um convite para mundos onde ancestralidade e futuro dançam no mesmo compasso. É assim que o multiartista Samuel de Saboia define seu trabalho para quem ainda não o conhece. “Pinto como quem constrói altares, componho como quem invoca tempestades. Tudo que crio é uma costura entre o que veio antes de mim e o que ainda não existe". Para ele, este exercício contínuo, mais do que seu ofício, é uma tentativa de expandir o tempo, de tornar “o invisível visível”, conta em entrevista exclusiva à Bravo! sobre os entrelaces de duas de suas maiores paixões: a pintura e a música.Em As Noites Estão Cada Dia Mais Claras, seu primeiro álbum completo, que chegou em maio às plataformas digitais, ele propõe um rock brasileiro nordestino que funciona também como diário íntimo em que corpo e voz encontram novas formas de narrar as suas próprias histórias e, por que não, do mundo também.Mesmo aos 27 anos, Saboia já acumula feitos incríveis como o selo de artista mais jovem a integrar a coleção do Los Angeles Contemporary Art Museum (LACMA) e Museo Thyssen em Madrid no ano passado, por exemplo. Fashionista e amante das manualidades têxteis, desde 2022, ele também é colaborador da grife Comme des Garçons — etiqueta de moda japonesa fundada por Rei Kawakubo — e possui parcerias criativas com revistas como a Vogue Britânica e a Balmain, uma das poucas marcas de luxo cujo diretor criativo é um homem negro (Olivier Rousteing assumiu o posto em 2011).É verdade que o pernambucano da geração Z ficou mundialmente conhecido por seu trabalho como pintor, mas Saboia segue em um diálogo intenso com outros suportes como a escultura, o vídeo, a performance e agora também com a música. Gravado entre as cidades de Londres, Paris, São Paulo, Salvador e Tóquio, As Noites Estão Cada Dia Mais Claras foi costurado ao longo de três anos de criação intensa do artista que tem a vida atravessada por deslocamentos geográficos e espirituais. Muitas das canções e dos arranjos, inclusive, foram compostos na madrugada (daí vem o título-epifania do álbum). A produção foi assinada em meio a esta colisão de urgência criativa por outros talentosos amigos do artista como LLEZ, Lucas Cavallin e Victor dos Anjos.Samuel prefere deixar de lado o termo “participações”, e chama os músicos presentes no álbum carinhosamente de “presenças afetivas”. São elas: Thomas Harres (bateria), Tom dos Reis (baixo), Yaminah Mello e Leonardo Ryo (sopros), Cainã Mendonça e Victor dos Anjos (teclados), LLEZ (violão), Lucas Cavallin (guitarra), Mauricio Badé (percussão em “Mainha Quer Ver Menino”) e Hodari (cordas em “Vingança Colorida”).Seja na tela ou na melodia, Saboia esbanja liberdade criativa com um sorriso largo de encher os olhos (e os ouvidos). “Quero rasgar o comum, transformar dor em cor, silêncio em ritmo, presença em rito. Para quem ainda não me conhece, eu diria: meu trabalho é uma viagem sem volta. E isso é exatamente o que o torna necessário”, conta à Bravo!. Confira abaixo a entrevista completa e permita-se um pouco de liberdade a cada novo parágrafo também.https://www.youtube.com/watch?v=xZyyUHyoIksBravo! | Como a arte e a música se tornaram formas de expressão para você?A arte me escolheu antes mesmo de eu entender o que era escolha. Cresci cercado por histórias, cores e sons que me atravessavam como se fossem parte da minha pele. A música chegou de mãos dadas com a arte visual — duas amantes intensas que me ensinaram que a realidade é só uma versão possível do mundo.Bravo! | Você tem 27 anos e já é um artista bem posicionado no concorrido mercado de arte internacional. Como funciona o seu fluxo de trabalho enquanto artista e empresário?Hoje chefio minha equipe nacional e mantenho o global com a Maruani Mercier. Esse desenho me solidifica em termos de estrutura e abre o espaço necessário para experimentar sem medo.Reconheço a importância dos curadores e do mercado, mas sem me diminuir para caber em uma mesa ou lista. Esse ato de reconhecer a própria grandeza é um orgulho saudável que vejo como parte brilhante da produção nacional. Sigo atento e interessado, e isso me permite criar em contínuo gozo.A luta por espaço e autenticidade dos que vieram antes de mim me permite sentar e sentir que meu corpo também pode — e merece — produzir uma obra. E, no lugar do medo, proponho com minha obra a curiosidade.Bravo! | Poderia contar detalhes sobre o seu processo criativo como artista visual e como músico? O que muda de uma linguagem para outra?Na pintura, estou tanto como quem conduz como quem é conduzido. O processo é instintivo, físico, como uma dança de guerra entre a cor e a tela. Na música, há mais estrutura, mas ainda assim, a emoção sempre vem antes da técnica. O que muda? A linguagem. A intenção é sempre a mesma: criar portais.Bravo! | Quando veio a vontade de, além de ser artista plástico, também investir em música como profissão?A vontade sempre existiu, como uma chama pequena que de repente virou incêndio. Um dia percebi que a música estava me chamando tão alto quanto a pintura e que não havia motivo para ignorar. Se eu posso criar mundos em tela, por que não em som?Bravo! | O que te motiva a compor e a pintar?A vontade de traduzir o caos em beleza. E talvez um leve desejo de provocar.Bravo! | O que a música te ensinou?Que a vibração de um som pode carregar segredos que nem as palavras conseguem explicar. E que um bom figurino sempre ajuda.Bravo! | Quais projetos mais mexeram contigo e por quê?Os que me tiraram do chão, porque é no desequilíbrio que a gente descobre novos jeitos de voar.Bravo! | Como o seu trabalho de pintor se insere nesse contexto tão disputado e volátil?Quando me entendi enquanto artista, sem a necessidade da validação externa, abriu-se um oceano de possibilidades autênticas no que diz respeito à minha produção. Meu ethos é criar o que eu gosto, transformar vivências pessoais em roteiros, cartões-portais.Já experiencio a vida sob a ótica de uma pessoa preta e decidi, de maneira lúcida, desenvolver uma criação de teor universal. Com o que crio, pude também anular o enrijecimento — me oponho com beleza e elegância a um sistema que vejo como falido.Bravo! | O que a arte contemporânea brasileira precisa hoje?Reconhecimento interno, autêntico e diverso do que a arte brasileira é no agora. Nas trocas e trabalhos, fica visível a mágoa desenvolvida pela falta de oportunidades no nosso setor — são poucos os que conseguem passar pelas diversas chancelas até a segurança e retificação da existência e do ofício do Artista. É comum e cansativa essa eterna dança de cadeiras e sobrenomes. Prezo por revigoro, celebração, festa e lugar à mesa para todos.De maneira mercadológica, é quase impossível, mas, assim como houve em outros períodos, vejo beleza e potência nos artistas que, em breve, vão se entender como parte de um movimento. Somos únicos, singulares, cada um com uma proposta e maneira de enxergar vida e criação — é preciso que a escassez termine e que haja uma compreensão de que o João e Maria de hoje têm toda a capacidade de ser o grande artista do amanhã.Bravo! | Como a arte mudou a sua vida?Ela não só mudou, como me criou do zero. A arte foi meu primeiro idioma, minha primeira oração, minha primeira fuga e meu primeiro lar. Se não fosse por ela, eu teria sido engolido pelo cinza.Bravo! | E quais são os seus questionamentos atuais enquanto artista multidisciplinar?Como criar algo que ainda não existe? Como ser honesto sem ser óbvio? Como reinventar sem perder a essência?Escute ao álbum As Noites Estão Cada Dia Mais Claras, de Samuel de Saboia